Transformação da vida de um menino tuyuka no internato salesiano de Pari-Cachoeira: leitura antropológica – por Dʉhpo: Justino Sarmento Rezende, Tuyuka

 

Contarei aqui a experiência de vida de um menino tuyuka que também representa a experiência de outras crianças, adolescentes e jovens indígenas que viveram no mesmo contexto histórico, o internato da missão salesiana em Pari-Cachoeira, Rio Tiquié, na região do Alto Rio Negro.

O texto pretende falar dos processos educativos escolares na região, que marcaram profundamente a vida de crianças, adolescentes e jovens indígenas numa perspectiva de educação escolar que visava a “transformação em brancos e civilizados”. Os resultados daqueles momentos são ressignificados e agenciados pelos próprios indígenas em diferentes espaços educativos noutra perspectiva de construção e manejo de uma educação escolar indígena.

História dos Salesianos

A história dos salesianos começou na Itália com Padre João Bosco ou conhecido popularmente como Dom Bosco. Ele fundou a Congregação Salesiana (1842) visando contribuir com a educação da juventude da Itália no período da revolução industrial, especialmente, em Valdocco, Turim (Itália). Naquele ambiente desenvolveu as atividades educativas e profissionalizantes, sustentadas pelos princípios da razão, religião e carinho. Os primeiros estudantes tornaram-se colaboradores e se tornaram primeiros salesianos. Sua filosofia educacional era “formar bons cristãos e honestos cidadãos” os jovens.

No Brasil os salesianos chegaram em 1883, na cidade de Rio de Janeiro. Em 1894 chegaram a Cuiabá. Em 1915 chegaram a São Gabriel da Cachoeira – Amazonas, com os primeiros salesianos Pe. Balzola, salesiano Coadjutor José Canudo e Pe. José Scolari. A partir desse período foram fundadas várias missões: Taracuá, Iauareté, Pari-Cachoeira, Barcelos, Tapuruquara, Içana, Cucui, Maturacá e Marauiá. Também, nessa região os salesianos quiseram formar os indígenas em “bons cristãos e honestos cidadãos”. Para atingir tal meta realizavam as atividades de evangelização, catequese, diversas atividades religiosas (bons cristãos) e implantaram a escola e cursos profissionalizantes para se tornarem em “honestos cidadãos”.

Os empreendimentos causaram sérios impactos através das atitudes de desrespeito, desconhecimento e desvalorização das tradições e culturas da região. Essas novas formas de educação marcaram profundamente na vida dos estudantes e os pais. Houve a transformação gradual de valores e práticas culturais, diminuição da utilização das línguas próprias, combate aos cantos/danças rituais, cerimoniais e atuação dos agenciadores especializados: Kumua são os pensadores, agenciadores das forças preventivas e curativas das doenças. Bayaroa são os mestres de Cantos e Danças rituais. Yaiwa são aqueles que realizam a xamanização dos ambientes, ao cosmo e das pessoas.

Internatos das Missões Salesianas no Rio Negro

Eu utilizo a minha própria experiência no internato de Pari-Cachoeira (1970-1979), município de São Gabriel da Cachoeira1 para narrativas sobre a dinâmica da vida no internato. Antes à chegada dos salesianos os nossos avós não possuíam experiências de viverem em internatos, como um lugar de concentração de muitas pessoas da mesma idade ou de várias idades. Os nossos avós nos contavam que viviam na Casa dos Saberes2, como membros de uma família nuclear. Nessa Casa estavam irmãos maiores e menores, irmãos com serviços de especializados: Kumua, Bayaroa, Yaiwa; irmãos que prestavam serviços: pescaria, caça, preparadores de materiais de rituais.

A minha experiência de aluno interno é compartilhada por diversas pessoas que viveram naqueles períodos, não por aquela geração pós 1987 que não pegaram mais os internatos. Quando eu tinha nove anos em 1970 meu pai colocou-me para estudar na  missão  salesiana e só lá que se estudava, ainda não existiam escolinhas nas aldeias. Foi um dia que eu senti grande diferença entre estar na aldeia e chegar ali no internato, eu não pude falar a minha língua tuyuka, pois meus parentes tuyuka impediam-me dizendo que ali eu poderia falar somente a língua tukano.

No internato começava uma profunda transformação de minha vida. Senti-me mal, inseguro, medroso e vergonhoso. Despertou em mim a vontade de voltar para aldeia, viver com os meus pais e falar a minha língua. Ao mesmo tempo isso era impossível, eu era apenas uma criança, não podia nem pensar nisso. Se eu conseguisse voltar para casa os meus pais me trariam de volta. Se os meus pais não me colocassem no internato eles sofreriam privações de acesso aos bens de civilizados oferecidos  pela  missão  salesiana.

A partir do ano 1973 surgiu outra intervenção no internato que foi a obrigatoriedade de falar somente a língua portuguesa. Quando falávamos as línguas tukano, tuyuka, desano e outras línguas os nossos próprios colegas denunciavam junto aos salesianos e aos “assistentes” que eram os próprios indígenas escolhidos pelos salesianos. O resultado disso era ficar de castigo, sendo privado dum desses momentos: almoço, janta, o mingau; fazer outras atividades: rachar a lenha e carregar para cozinha, etc.

Esse controle que nos obrigava a aprender e a falar a língua portuguesa, era a demonstração de nosso avanço no caminho do “progresso e civilização”. Quem obtivesse certo domínio da língua portuguesa já era considerado e se considerava como “branco” e “civilizado”. Do contrário, era considerado como “índio” e “atrasado”.

Processo de educação de crianças, adolescentes e jovens indígenas no internato

Com o tempo nós acostumávamos com o estilo de vida de internato. Estávamos convencidos de que ali era o lugar de estudos e aprendizagem de conhecimentos ligados à vida dos “brancos”. Aqui não nos ensinavam os conhecimentos indígenas. Sonhávamos com o mundo do “branco” e dos “civilizados”. Nossos professores eram os não indígenas, que eram salesianos e as salesianas. Os indígenas professores surgiram pouco a pouco, eram os ex-alunos de internatos que os missionários escolhiam entre os melhores estudantes. Eles não falavam a língua indígena, falavam somente a língua portuguesa. Naquela época não entendi o “porque” disso. A releitura daquela história, hoje, leva-me a compreender que o indígena professor tinha que ser daquele jeito, ele tinha se formado para ser assim, isto é, igual ao ‘branco’, reprodutor de conhecimentos não indígenas.

Os missionários nos ensinavam as técnicas agrícolas, criação de gado, suínos, galinhas; curso de mecânica, marcenaria e alfaiataria. Os tempos de aulas e os estudos pessoais estavam bem organizados; não faltavam horas de esporte; aprendíamos práticas de vida cristã: missa diária, retiro mensal e catequese.

 Enquanto estávamos no internato os nossos pais viviam nas aldeias. Estávamos vivendo longe de nossas famílias durante meses. Éramos educados num mundo diferente de nossas aldeias. Cada ano chegava um número aproximado de duzentos alunos. As estruturas estavam bem organizadas: um dormitório para menores e médios; um dormitório para os maiores; dois refeitórios; dois lugares para estudos; três campos de futebol, para menores, médios e maiores; na igreja organizavam: menores e médios; noutra fileira os maiores.

Como forma de resistência e proteção entre nós formávamos grupos mesclados de alunos maiores e menores. Os alunos maiores tornavam-se protetores dos menores. Essas realidades não nos faziam bem, pois surgiam muitas disputas e brigas. Os alunos mais fortes eram temidos pelos demais.

Em nossas aldeias nós, crianças, adolescentes e jovens sabíamos pescar, fazer roça, caçar e trabalhar segundo a nossa compreensão de mundo que os nossos nos transmitiam. Essas nossas capacidades eram desconhecidas e anuladas na vida do internato. Não tínhamos nossa liberdade para viver bem nossas vidas. Nós éramos controlados e nós mesmos controlávamos aos demais, adequando-nos ao estilo de vida de um internato.

Os nossos pais poucas vezes nos visitavam devido às distâncias geográficas. Depois que nos deixavam no internato eles somente vinham participar das programações religiosas: Páscoa (março/abril), festa de Nossa Senhora Auxiliadora (maio) e Festa de Dom Bosco (agosto). Quando vinham para essas festas traziam alimentos típicos de nossa cultura. Fora desse calendário religioso, de vez em quando, alguma pessoa da aldeia vinha visitar seus filhos e por ela nossos pais enviavam alguns alimentos.

Nas festas religiosas chegavam todos os moradores das aldeias. Para envolvê-los organizavam várias celebrações, procissões, torneios para disputas entre os moradores de diversas regiões. Nós internados também tínhamos nossas equipes de trabalho e de esporte. Além das atividades religiosas e de esportes eram distribuídas as refeições para os festeiros.

Apesar de eu ter dito que com o tempo nós acostumávamos ao internato, não deixávamos de sentir a dureza dos tempos de trabalho, das disciplinas rigorosas e dos castigos. Para o extravasamento das tensões e os pesos que sentíamos havia a prática de esporte, torneios, cinema aos domingos, apresentações mensais de teatros e passeios mensais. O símbolo de controle da disciplina do internato era o badalo do sino (sinos nos dormitórios, no refeitório, no estudo; sino da igreja); no trabalho, no esporte e banho era apito do salesiano ou “assistente” indígena.

Para cada ano adquiríamos experiências novas. Na medida em que passávamos de ano ganhávamos mais segurança e dominávamos os menores. O perfil do salesiano marcava positiva e negativamente a nossa vida. Quando o salesiano era compreensível, amigo e animador nós caminhávamos bem. Com o salesiano incompreensível e disciplinador, castigador sentíamos muito mal, sofríamos, ficávamos medrosos e inseguros.

Através dos processos da evangelização, catequese, escolarização e a profissionalização de internos os salesianos provocaram mudanças culturais. A parte religiosa exercia influências fortes na nossa formação humana, na nossa personalidade. Um clima misturado de medo e alegria, frente às ideias da morte e vida eterna, de pecado e graça, inferno e céu fortalecia a disciplina (obediência) de internato e a ‘docilidade’ dos jovens.

Os seus métodos educativos suscitavam em nós os “choques”, “estranhamentos”, “medos”, “tramas”, “traumas”. Essas realidades posteriormente foram muito narradas às gerações posteriores aos internatos. Por outra parte os mesmos processos criavam em nós o “apego” e o “gosto” por tais métodos.

Em meio à complexidade de fatores da vida de internato ficava claro para nós que estávamos ali para estudar e estudar. O internato significava lugar de estudo, da aprendizagem dos conhecimentos do ‘branco’, criar sonhos com o mundo dos ‘civilizados’ e sonhar em conquistar coisas novas. A vida era dirigida de forma bem organizada, com os horários detalhados, avaliações mensais medidas pelas notas de comportamentos. Assim mediam a nossa aprendizagem e a construção da pessoa que se propunham formar: “honesto cidadão e bom cristão”.

A permanência no internato era de oito meses e quatro meses com a família. O curto tempo de permanência com a família não era suficiente para aprender os ensinamentos de nossos avós. Apesar desse tempo curto o meu avô transmitia-me alguns conhecimentos. Mas, sabia que eu não lhe daria o resultado esperado.

Por outra parte havia a proibição para a realização das cerimônias e rituais de cada povo. O cristianismo “controlava” a vida das pessoas. Os mestres de nossos saberes e suas práticas eram considerados como agenciador dos poderes do “diabo” e era visto “atraso”. Em algumas aldeias praticavam-se às escondidas.

Eu estudei em Pari-Cachoeira [1970-1979] como aluno interno até concluir a 8ª série. O sistema educativo empreendido ensinou-nos muitas coisas novas. Não se ensinava os valores indígenas. Assim gerava progressiva separação ao nosso modo de educação. Com os primeiros alunos internos o sistema educacional não abalou a base da educação dos povos indígenas, pois eles já possuíam base firme cultural e permaneciam pouco tempo no internato. A partir do final da década de 1960 que entravam adolescentes e jovens. Para nós ficava bem evidente de que quanto mais cedo entrássemos no internato com mais facilidade tornaríamos ‘civilizados’.

O deslocamento físico-cultural, da aldeia para internato, impediu o processo educativo indígena [Tuyuka, Tukano, Desano, Piratapuia, Wanano, Tariano etc.]. No momento em que nós poderíamos passar pelos rituais de iniciação estávamos sendo iniciados em outros ritos ocidentais para começar a ser “brancos”. Fomos habilitados e qualificados para participarmos destas cerimônias do mundo ocidental.

Ano após ano nos distanciávamos dos rituais e cerimônias de nossos avós. E, muitos nem fomos iniciados conforme nossas tradições. Essa realidade preocupava os mais velhos, nossos avôs. Muitas vezes eu ouvi o meu avô falando com outros senhores: “os nossos valores, cantos, danças, rituais, cerimônias, um dia vão acabar, pois nossos netos se tornarão como ‘brancos’”.

Na década de 1970 era bem presente a negação da identidade e aversão às culturas indígenas. Nós não estávamos educados para amar as nossas tradições indígenas. A nossa meta era a chegar como os “não índios”, “civilizados”: falando a língua portuguesa, vivendo os seus costumes, praticando as profissões que nós aprendemos. Os nossos pais quando um filho já sabia falar a língua portuguesa diziam: o meu filho já é ‘branco’! Esta situação gerava orgulho aos jovens, pais, professores, salesianos e ao governo.

No final da década de 1970 surgiram as preocupações conosco e com as nossas culturas. Surgiram críticas ao modelo escolar vigente, prática salesiana de educar e evangelizar. A partir disso começavam a falar que as escolas tinham que valorizar as culturas indígenas nas escolas. A nova interpretação daquela história gerou conflitos entre os indígenas e missionários. Os indígenas acostumados com as práticas da ‘civilização’ entendiam a proposta de valorização das culturas indígenas como a volta ao passado. Alguns salesianos insistiam para que nós recuperássemos nossas práticas culturais, mas tinham outros que não queriam. Estava começando uma nova compreensão histórica da escola, compreensão dos povos indígenas.

Em Pari-Cachoeira nas reuniões de pais, algumas lideranças tradicionais diziam que a finalidade da escola deveria ser ensinar os conhecimentos das sociedades ‘civilizadas’ para seus filhos e filhas. Diziam que os filhos e filhas não estavam na escola para aprender as culturas indígenas.

Somente na década de 1980, após a aprovação da Nova Constituição Federal do Brasil e com os compromissos das Associações e Organizações Indígenas, assessoria de antropólogos, linguistas e outros profissionais das entidades indigenistas que se fortaleceu a conscientização pela valorização das culturas indígenas. Esta nova mentalidade surge dentro de um delicado processo de negociação entre aquilo que os jovens, lideranças, pais e comunidades sonham como fortalecimento das culturas e identidades indígenas.

Para finalizar

As releituras antropológicas das trajetórias de minha vida e dos outros adolescentes e jovens mostram que passamos por profundas transformações humanas. Cada um de nós chegou até onde chegou, também por aquela educação recebida nos internatos. Essas transformações foram percebidas por nossos pais, por nós mesmos, pelos salesianos e pela sociedade brasileira.

Os pesquisadores não indígenas e indígenas sobre as realidades dos internatos obtiveram grandes resultados em suas produções acadêmicas: trabalhos de conclusão, dissertação de mestrados e teses de doutorados. Após trinta e sete anos dos internatos terem fechados os seus ex-alunos continuam ocupando vários espaços sociais, na política partidária, nas escolas como professores, coordenadores, pedagogos e gestores; outros estão assumindo as secretarias de educação a nível municipal; outros ocupam cargos de assessorias no estado e a nível nacional; os protagonistas da implantação da educação escolar indígena no rio Negro foram os ex-alunos dos internatos. Assumiram o desafio de construir as escolas indígenas, pois haviam se apropriado das mazelas de outro modelo escolar ocidental. Eles não queriam que as novas escolas fossem semelhantes aos modelos de internatos. Não conseguiram mudar totalmente, pois eles mesmos haviam passado do modelo ocidental para iniciar o outro modelo. O modelo antigo ainda serviu como referencial para se repensar uma nova educação escolar indígena.

Os estudos da Antropologia Social ajudam-me a entender as diversas situações que eu vivi e diversas atividades introduzidas em nossa região por não indígenas e aquilo que nós mesmos indígenas fomos aceitando e pedindo.

Os meus cinquenta e sete anos são importantes, pois me fazem entender de maneira nova aquilo que eu mesmo escrevi, pensei e senti na minha própria pele. Muitas coisas os não indígenas escreveram sobre nós. Mas nós vamos reescrever, pois com os estudos acadêmicos assimilamos diversos instrumentos para ler criticamente as nossas culturas, nossos conhecimentos e nossas vidas como resultados de diversas transformações.

1 Está situado na fisiográfica do Alto rio Negro, no extremo norte do Brasil em uma região conhecida como “CABEÇA DO CACHORRO”. Ocupa uma extensão territorial de 112.255km2, com 0,41 habitantes por Km2, o que representa 7,11 da superfície do Estado do Amazonas.

O termo Casa dos Saberes foi a substituição do termo Maloca, por muito tempo utilizado na nossa região. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro – FOIRN que decidiu a troca em sua utilização.

Justino Sarmento Rezende é do povo Tuyuka e padre Salesiano. Possui formação em Filosofia, Teologia, Mestrado em Educação (UCDB), Doutorando em Antropologia Social (PPGAS/UFAM) e membro do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI/UFAM).

justinosdb@yahoo.com.br

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Um comentário em “Transformação da vida de um menino tuyuka no internato salesiano de Pari-Cachoeira: leitura antropológica – por Dʉhpo: Justino Sarmento Rezende, Tuyuka

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  1. Muito importante ter acesso a essas leituras vivenciadas pelo próprio autor. As missões religiosas no Brasil. Foram responsáveis pela negação de um povo. E esse processo civilizatorio e os estereótipos continuam arraigados na sociedade contemporânea.

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